Blog do Wanderson Marçal


Neoliberalismo é antidemocrático

 ( Fi-lo porque qui-lo) Para encerrarmos a trilogia sobre o neoliberalismo, cabe agora propalar as falácias que estão diametralmente ligadas ao discurso desta ideologia e suas contradições. Fá-lo-ei em subtítulos, para melhor entendimento. Leia atentamente:

   Seguir as tradições históricas.

 Para os pensadores neoliberais conservadores, a sociedade segue padrões morais e não deve questioná-los e muito menos ceifá-los, pois consoante Friedman “os valores da sociedade, sua cultura, suas convenções sociais, todos eles desenvolvem-se de idêntica maneira, através do intercâmbio voluntário, da cooperação espontânea, da evolução de uma estrutura complexa através de tentativas e erros, de aceitação e rejeição.”¹.

 Essa pensamento, que assenta o bestial lema “ que as coisas são assim porque assim é natural que sejam e sempre serão assim porque assim foram sempre”², propugna que a sociedade deve seguir um determinado caminho natural da história e que se faz necessário preservá-lo, pois mesmo que não seja possível entendê-lo em sua complexidade existencial, é necessário mantê-lo face ao direito à manutenção das tradições.

 Intervenções não-democráticas

 Quando numa determinada sociedade, seja por quaisquer motivos, essa pretensa predisposição natural da História é interrompida, cabe aos órgãos diretores da sociedade intervir. É neste âmbito que se justifica, para os neoliberais, a intervenção dos Regimes Ditatoriais Militares nas décadas de 60 e 70 na América meridional. Essa propensão natural para os teóricos desta corrente são, primordialmente, o direito à propriedade privada e ao direito de liberdade individual, que segundo eles podem ser suprimidos com um regime democrático que privilegie a maioria em detrimento da minoria.

 Sociedade da lei de mercado.

 O indivíduo, na sociedade neoliberal, é visto como um mero consumidor, e o Estado, ao mesmo tempo, deve apenas garantir a igualdade jurídica, já que para os neoliberais “não há nada que descanse sobre um fundamento mais débil que a afirmação da suposta igualdade de todos os que têm forma humana”³ . É a lei de mercado que deve prevalecer sob todos os segmentos sociais, algo que difere do pensamento liberal clássico, que em alguns teóricos via a possibilidade de o Estado promover a educação, a saúde e outros programas que não poderiam ser dissociados do direito à cidadania. No neoliberalismo, a ação do Estado deve resumir-se a evitar sua própria intervenção na economia.

Competitividade responsável por ordem social.

 Para estes, a lei de mercado e a competitividade estribada à ela formam a ordem social. Nessa sociedade, a ordem social é supostamente definida pela competência do indivíduo. É responsabilidade apenas dele seu êxito ou fracasso econômico e social.  E nesse aspecto, fundamentalmente, os neoliberais orgulham-se de serem diametralmente opostos aos projetos socialistas e keynesianos, que segundo eles, planificam a sociedade.

 Destruindo argumentos.

 É uma teoria que está imbuída num processo histórico-político econômico, portanto não cabem aqui julgamentos maniqueístas. Mas os argumentos acima postos podem ser facilmente questionados. O primeiro, por exemplo, da necessidade de se seguir as tradições históricas é extremamente contraditório. Essas tradições que eles mensuram, na verdade, são as desenvolvidas nos países de capitalismo central, e quais sejam, Europa e Estados Unidos. Não existe “rota natural na História”, pois se assim o fosse, todas as sociedades, em todos os tempos e lugares agiriam em conformidade e rumariam para o mesmo caminho. O que vimos na História foi o processo de imposição de uma cultura, a européia, sobre as demais.

 Se há uma falácia é a de que as sociedades neoliberais são democráticas. Elas não são. A própria supressão do Estado por a dita defesa do indivíduo é orquestrada no sentido de afastar de vez qualquer possibilidade de o povo impor sua vontade. Enquanto com o Estado o povo, por meio do sufrágio, pode se “fazer” representado, com o domínio da esfera financeira, apenas aqueles que possuem grande capital é que tomam pra si o poder.  É a completa alienação política da plebe.

  A terceira e a quarta questão podem ser discutidas juntamente. Para os teóricos dessa corrente que me propus a analisar, a prevalência da lei de mercado é uma forma plausível de se garantir possibilidades igualitárias de ascensão social. Cabe ao Estado não intervir, e deixar os individuos, equânimes, se digladiarem. O que de fato ocorre com a alocação em prática dessa política econômica sórdida pelo viés humano, é uma planificação social, exatamente aquilo a que os neoliberais dizem fazer oposição.

 No entanto, diferentemente do Estado benfeitor e do socialista, é uma planificação social elitista, pois os atores hegemônicos que detêm o poder nunca o perderão, fato visto e comprovado durante a forte crise econômica que assolou o mundo recentemente, na qual o Governo, por meio de ajuda financeira, os tirou do buraco no qual tinham entrado. E no âmbito individual, aqueles que possuem capital cultural e econômico, como bem define Bourdieu em sua teoria dos capitais, iniciam com vantagens abissais sobre aqueles que são vítimas da desigualdade social na disputa por melhores colocações no mercado de trabalho. Portanto, podemos concluir que a sociedade neoliberal é semi estamental, elitista, antidemocrática e preza pela manutenção do “Status Quo”.

 

 

1 – FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e liberdade.

2 e 3 – Citações do livro: Modelo Neoliberal e Políticas Educacionais, BIANCHETTI, Roberto.

 



Escrito por Wanderson Marçal às 21h23
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Neoliberalismo e economia global.

 ( Uma gaja me faria bem?)  No post anterior o partícipe carioca Girondino, que bem sabemos quem é, refutou meus argumentos a dizer que o liberalismo no Brasil não se faz presente e nunca se fez, pois nossas políticas foram, e as são ainda hoje, calcadas no populismo, consoante ele, de esquerda.

 Ele não está totalmente incorreto, pois o liberalismo no Brasil não se fez vigente em nenhum momento de nossa história como plano precípuo. Se falarmos em políticas liberais, teremos de recorrer à planos e à medidas dentro de uma conjuntura nacional estatal “estranha” ao liberalismo clássico e ao moderno.

 Mas então porque falo das influências neoliberais na sociedade brasileira? Pra quem leu o post anterior, em certo momento mensurei o fato de o termo ter uma conotação que abrange não somente a política econômica, mas também as relações sociais.  Cabe lembrar que o neoliberalismo surge como panacéia à crise do Estado Nacional em meados da década de 70. Com a eclosão e fortificação do processo de globalização, uma das exigências era achar meios para que o “processo de interligação crescente entre as economias industrializadas por meio das novas teconologias”¹ não fosse barrado, entre outras coisas, por medidas protecionistas.

 É nesse contexto que a esfera econômica internacional passa a suplantar o Estado, a ser este refém desta conjuntura. Em miúdos: mesmo que o Estado não adote o novo liberalismo como política econômica estatal, o processo internacional o fará, pois, como adiantou Milton Santos, “a globalização constitui o estádio supremo da internacionalização, na qual os territórios nacionais se transformam em espaços nacionais da economia internacional e nos quais as infra-estruturas mais modernas, criadas em cada país, são mais bem utilizadas por firmas transnacionais do que pela própria sociedade nacional”².

 Ou seja, cabem aos Estados Nacionais facilitarem a ação desses atores hegemônicos ( transnacionais, fundos de investimentos etc...), mesmo que, como supracitado, não adotem políticas totalmente “liberais” em sua concepção mais famosa, tais quais as formuladas por Friedrich Hayek e Milton Friedman.

 E é dentro deste cenário globalizante do neoliberalismo que políticas asseclas desta concepção passam a assolar a educação( tema do último post), vide as políticas educacionais adotadas nos últimos anos, e quais são: PROUNI ( Estado passa a abdicar do direito a promover o ensino superior e o repassa à instituições privadas); valoração e ampliação do Ensino técnico ( Voltado à qualificação profissional); Enfoque curricular nas ciências exatas ( Em detrimento das humanas...)  etc.

  Espero que tenha ficado claro. ^^

1 – MARRACH, Sonia Alem: Neoliberal e Educação

2 – FFLCH: ARROYO, Mónica; Globalização e espaço geográfico.  



Escrito por Wanderson Marçal às 21h11
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