Entrevista de Barrichello em dezembro último.
— Como recebeu da notícia da desistência da Honda?
— Foi um choque, e nada esperado. Meu teste já havia sido marcado para os dias 9 e 11 de novembro, em Jerez. Estava ligando para o Ross (Brawn, chefe de equipe), para bater papo e ele me falou para segurar, porque alguma coisa estava rolando, mas que ele não podia me falar nada. Achei estranho e liguei para a logística e com eles estava tudo marcado, vôo, hotel. No dia seguinte, o Ross me ligou com a notícia pela manhã e disse que iria falar para a equipe à tarde. Daí, vi que ninguém sabia de nada.
— Já se imagina fora da F-1?
— Honestamente, não. Se Deus quiser, se tiver um comprador que queira financiar, mas deixando o comando com o Ross, acredito que minhas chances são boas.
— Tem chance em outra equipe? O que o motiva a correr?
— Eu corro pelo desafio, pela ultrapassagem e pelo amor à velocidade... Continuo falando com a Toro Rosso, sim.
— Pensa em outra categoria?
— Neste momento, não penso em correr a não ser na F-1.
— Tomar a decisão de se aposentar é muito doloroso?
— O que tiver de ser vai ser, e não tenho problemas quanto a isso. Mas minha vontade em 100% é de continuar.
— Qual balanço da carreira?
— São 16 anos de alegria e de aprendizado. Os pontos altos foram as vitórias. E o baixo foi a morte do Ayrton Senna.
— Qual a análise do início pela Jordan, convivendo, a partir de 1994, com a pressão de "substituir" Ayrton?
— O início foi muito bom e o problema foi o Ayrton partir tão cedo. O Emerson Fittipaldi criou nosso mundo muito bem. Quando ele já não estava tão bem, o Nelson Piquet estava crescendo e já numa equipe competitiva. O mesmo aconteceu com o Ayrton em relação ao Nelson. Para mim, faltaram pelo menos uns dois anos de preparo para a pressão e, obviamente, um carro competitivo.
— Que amizades você fez na Fórmula-1? E desafetos?
— Sou um cara de muitos amigos. O Coulthard sempre foi, desde a época de F-Opel. Hoje, sou muito amigo do Kubica, Fisichella, Liuzzi e, obviamente, do Massinha. Nunca curti muito o Ralf Schumacher, por sua arrogância, mas nem por isso era desafeto.
— Como a família tem reagido diante da indefinição? Imagina os filhos correndo?
— Meus filhos amam ver o pai correndo e minha mulher me apóia demais. Meus pais, tios, avós viveram minha vida inteira e acredito que queiram muito que eu possa continuar, especialmente porque sabem que quero muito. Eu adoraria vê-los correndo, mas isso será para eles decidirem.
— Como foi correr com um carro não tão competitivo, depois de tanto tempo numa equipe de ponta?
— Aprendi que o que importa na vida é o que você leva pra casa. Hoje, tenho certeza de que sou melhor piloto do que fui nos tempos de Ferrari, por exemplo. Esses tempos duros também ensinam muito.
— Você se sente frustrado por não ter sido campeão?
— Frustrado, não, porque tenho certeza de que teria sido, não fossem situações impostas. A F-1 já teve campeões que nunca ganharam nada em outras categorias e que só levaram na F-1 pelas circunstâncias envolvidas. Comigo foi o contrário... Ganhei em tudo que passei e não tive as tais circunstâncias a meu favor.
— Como imagina que seria sua carreira se não tivesse competido com o Schumacher na mesma época na Ferrari? Acredita que teria sido campeão mundial?
— Com certeza e, desculpe a falta de modéstia, teria sido mas mais de uma vez.
— Uma suposta transcrição do seu diálogo com a Ferrari no GP da Áustria de 2002, com ameaças a sua mãe, foi publicada no livro do jornalista Lemyr Martins. Você pensou em processá-lo?
— O Lemyr foi sempre um amigo. O problema é que se meteu numa situação ridícula de alguém que inventou a história na Internet e ele colocou no livro. Nunca processaria o Lemyr, mas ele poderia ter perguntado antes de publicar o livro. A transcrição real só temos eu e a Ferrari...
— Como foi a conversa com a equipe nas voltas finais?
— Papo do passado e talvez do futuro.
— Se você estivesse no lugar do Schumacher, teria recusado aquela vitória?
— Olha, eu tinha sim. Meu pai me ensinou a ter princípios, a ser genuíno, e hoje, fora o orgulho de tudo o que conquistei, durmo tranqüilo. Só aceitei a corrida dos EUA porque tinham me roubado a da Áustria e mesmo assim quando o Michael tirou o pé eu também tirei, porque não entendi nada. Daí, ele voltou a acelerar e freou de novo... Ganhei, mas nunca falamos disso.
— Como é sua relação hoje em dia com o Schumacher?
— Tranqüila.
— Você acredita que a história poderia ter sido diferente se suas condições na Ferrari fossem as mesmas dele?
— Passei muito tempo focado em chegar na frente dele que esqueci meus próprios objetivos. Hoje, seria diferente, principalmente porque, apesar do Schumacher ser o maior campeão de todos os tempos, ele tinha pontos fracos.
— Por que deixou a Ferrari?
— Acreditei na Honda e no esquema que tinham montado. Caí do cavalo.
— Você já declarou que alguns brasileiros o vêem como "frouxo". Acredita que poderia ter assumido outra postura na Ferrari?
— Noventa por cento dos brasileiros teriam feito exatamente o que fiz, se estivessem no meu lugar escutando no rádio o que eu escutei.
— Você também foi alvo freqüente dos humoristas. Já se irritou com piadas?
— Acho um bando sem-graça. Estúpido tirar sarro de alguém que vai lá representar o Brasil e dá sangue por isso. Quer tirar sarro, tira desse monte de políticos que rouba e não tem respeito por ninguém.
— Com o livro que pretende escrever, acredita que pode mudar sua imagem?
— Sou aquela pessoa educada, que dá duro para ganhar, mas não faria nada que não fosse justo para ganhar. Portanto, não acho que precise de alguma coisa para mudar minha imagem. Quem gosta... gosta.
— Como vê o futuro do Felipe Massa e do Nelsinho Piquet?
— O Felipe tem um bom futuro pela frente. O Nelsinho precisa mostrar serviço no ano que vem, senão já era.
— Você desaconselhou o Bruno Senna a ir para a Honda. Acredita que ele ainda precisa de experiência?
— Essa é minha opinião para uma pessoa de extremo talento, mas com apenas três anos de experiência.
— Qual lembrança quer deixar da sua passagem na F-1?
— Do cara determinado e justo que eu sempre fui.
— Quais os maiores pilotos?
— Ayrton Senna e ponto.
Escrito por Wanderson Marçal às 20h26
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